Dimensões do modelo 4D e responsabilidades?

Dimensões do modelo 4D e responsabilidades?[1] :  O modelo 4D

 

Este artigo é baseado no artigo FLUXONOMIA 4D: AS QUATRO ECONOMIAS DE FUTURO[2] e em reflexões minhas desde que conheci, ainda que não com profundidade de uma estudiosa e/ou profunda praticante, a Fluxonomia[3]. Junto com ela, vem minha visão que contempla redes, nodos e seus fluxos[4].
E a complexidade, muita complexidade e seus sistemas interligados.

Estamos em uma transição de modelos de viver, empreender, gerir, fazer curadoria, sensibilizar. Já foi necessário estar atuando em zonas de muita inovação e experimentação para se perceber isso, mas agora, em 2018, não o é mais.

Como observam os fluxonomistas, a crise vem do fato de que os problemas e velocidade são exponenciais (crescem rapidamente, por multiplicação), e nossa capacidade de resposta ‘tradicional’ tende a ser linear (tem pouco alcance e avança lentamente, por soma).

Evidentemente a solução está, então, em buscar dinâmicas e estratégias que tenham natureza exponencial e foi isso principalmente que a Fluxonomia fez.
E nesta busca por resultados exponenciais, foram identificadas pelo grupo da Fluxonomia, em geral, e por Lala Deheinzelin[5], em particular, quatro economias que na época em que os artigos foram escritos eram ‘de futuro’ e que agora são cada vez mais ‘do presente’ e que seguem um padrão e um fluxo onde uma economia ativa exponencialmente a outra.

São elas:

ECONOMIA CRIATIVA: fluxo de “matérias primas” abundantes, que não se consomem, mas se multiplicam com o uso, como cultura, conhecimento, criatividade, experiências da comunidade.

 

ECONOMIA DO COMPARTILHAR: fluxo de infraestrutura de forma mais acessível e sustentável, a partir do compartilhamento de espaços, equipamentos, materiais.

Ver a reportagem neste link:

O que é compartilhamento de carros e como usá-lo?  https://www.vivotech.com.br/o-que-e-compartilhamento-de-carros-e-como-usa-lo/

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ECONOMIA COLABORATIVA: fluxo de iniciativas, conectadas e convergindo potências, por meio de gestão distribuída e processos em rede.

 

ECONOMIA MULTIVALOR: fluxo de recursos e resultados de toda natureza, não apenas monetários, mas também culturais, ambientais e sociais.

E as quatro são chamadas de 4D = as quatro dimensões da sustentabilidade.

A Fluxonomia 4D é justamente a combinação destas 4 economias em fluxo(s)[6].

Só que não basta considerar as quatro. Isso bastaria em um quadro comum, mas ao se contemplar a complexidade é essencial que aqui se contemple também as interações entre elas.

Segundo a Fluxonomia, a Economia Criativa gerando valor através dos patrimônios intangíveis, que combinados com os patrimônios tangíveis acessíveis a partir das tecnologias sociais, sejam ela digitais ou não, na Economia Compartilhada, resultam na Economia Colaborativa, que ao conectar iniciativas pequenas e diversas a partir das duas primeiras economias, gera valores 4D, que resultam na Economia Multivalor e, assim, sucessivamente.
Ou seja, o valor aumenta no fluxo e é exponencializado quando o fluxo é 4D.

E também se observa que cada vez mais antigas e novas metodologias e ferramentas sociais estão sendo muito usadas, mescladas, experimentadas e ajustadas, em todas as economias.

Então, porque ainda não ficamos ricos diante de tamanha potencialidade de abundância através dos fluxos 4D, perguntam os fluxonomistas?
Umas das perguntas que eu colocaria aqui seria, “o que é valor para você?”
Porque “o que é valor” tem a ver com modelo “ganha-ganha” (ou não, se eu quero ficar no ‘ganha-perde’ ou no ‘perde-ganha’); tem a ver com o ponto de suficiência de cada um (“o quanto você precisa para viver bem?”); seu modelo de mundo; e outros pressupostos de vida.

E se segue dizendo que seria fundamental entender que há uma grande diferença entre ser e estar. Pois somos ricos, mas não estamos ricos, porque as 4 economias de futuro ainda seguem praticamente invisíveis, embora cada vez menos. E isso porque nossa visão e nossas métricas para muitos ainda não estão preparadas para perceber as riquezas à nossa volta, elas medem parâmetros de “modelos velhos de mundo”. Fomos treinados a enxergar e dar valor apenas ao que é tangível (o ambiental e o financeiro), e por isso ainda estão mais disponíveis, e “entendíveis”, as ferramentas para medir riquezas tangíveis e mais visíveis onde os resultados que só consideram são o numérico, o quantitativo e o monetário “normal”.  [7]

 

O ser rico para muitos de nós é ter muito dinheiro e ser multimilionário. É ter dinheiro para fazer o que quiser. Não para se ter o que se precisa.
Por mais que usemos como “o mesmo”, “ter o que se quer” não é o mesmo que “ter o que se precisa”.

[8]

Lendo que a Fluxonomia 4D trabalha observando e compreendendo os fluxos e percebendo que de nada vale ter recursos ambientais ou financeiros se não houver conhecimento e pessoas para trabalhar com eles de modo suficiente e regenerativo, e aí vi muito sentido também no que o design regenerativo[9] propõe.
Porque não faz sentido algum ser “rico” em um mundo que se acaba e se exaure a cada dia. E onde se acha que, por mágica, ele se restaurará.

E então a Fluxonomia considera que para sair dessa situação paradoxal de escassez diante de tantos recursos abundantes, precisamos começar por desenvolver novas métricas que possibilitem visualizar e tangibilizar intangíveis – aquilo que não se vê, não se guarda em bancos, mas é essencial à vida. Visibilizar e atribuir valor a recursos e resultados nas quatro dimensões da sustentabilidade.

Ponderam os fluxonomistas que somente essa sistematização possibilitará fazer com que a crise seja uma benéfica transição de uma economia de consumo que tende à exaustão (modelo de competição/ escassez) para uma economia do cuidar que se multiplica (modelo de colaboração/ abundância), como mostra a figura anterior[10].

 

COMO SER CO-RESPONSÁVEL

O que é ser co-responsável para qualquer uma das dimensões do modelo 4D, segundo os fluxonomistas? Fundamentalmente é se comprometer em realizar pequenas tarefas que vão se impondo como necessidade.

E, esmiuçando, é:

  • “Não é se responsabilizar sozinho”.


    O que faz muito sentido em ações que acontecem em ambientes em rede, já que mesmo a pessoa é uma rede de “eus”. Embora seja necessário pontuar aqui que o mundo funciona em rede. E em redes de redes. E em redes de redes de redes de redes…

 

  • “Também não é garantir um determinado resultado”.
    O que faz sentido em um ambiente complexo que funciona em rede. Nestes ambientes, pode se prever muita coisa, pode-se fazer ‘análise de cenários’[11], mas nada pode ser determinado a priori com certeza.

 

“Comprometer quer dizer ‘levar adiante com’ e, portanto, o que é necessário é ter um movimento incluindo as pessoas que queiram estar nele até que o resultado que tem que aparecer, apareça. Seja ele qual for”.

E esta co-responsabilização me lembra muito o Small Act Manifesto[12].

E seguindo sugerem explorar como exemplo, e como explicação, a necessidade de pagar as contas de luz e água.

Todos os co-responsáveis devem implantar a solução de arrecadação, fazer o trabalho de mobilização das pessoas, de dentro e de fora do grupo, para que contribuam com o dinheiro e, com este dinheiro arrecadado, pagar a conta. Todos os co-responsáveis são responsáveis por todas as partes do processo, independentemente do grau de interação de cada um com os demais e com o processo. Eventualmente um ou outro pode até contribuir com dinheiro próprio para o pagamento da conta, mas não são responsáveis pelo pagamento dela, todos o são.

Se, no limite, as contas não forem pagas, fica-se sem água e luz.

São listados abaixo as 4 dimensões do modelo fluxonomista onde devem acontecer estas co-responsabilidades:

1) DIMENSÃO CULTURAL (habilidades e valores):

Somos exponenciais pois somos uma economia criativa e, portanto, nossa matéria prima é infinita e deveria se multiplicar como uso.

Porém só gera valor exponencial se estiver visível e acessível.

Perguntas a serem feitas nessa dimensão:

Que acontece aqui?
Quais iniciativas que circulam aqui?

Meu comentário: também aqui se pode pensar em redes, pois redes que tem seu fluxo obstruído, que são “artificialmente represadas” são lentamente levadas à estagnação. E apodrecem. E o custo de ações artificiais – que não seja desobstruindo os fluxos – para evitar este “não-apodrecimento” é muito alto, e acaba “comendo” recursos que deveriam ser usados de maneiras mais saudáveis.

2) DIMENSÃO AMBIENTAL (infraestrutura: espaço e equipamentos):

Somos exponenciais, pois somos uma economia compartilhada e, portanto, nossa infraestrutura deve otimizar recursos existentes

Porém só gera valor exponencial se os recursos disponíveis para compartilhar forem mapeados e conectados.

Perguntas a serem feitas nessa dimensão:

Que acontece aqui com quais recursos?
Quais iniciativas que circulam aqui e com quais recursos?
Quem vem e precisa destes recursos?

Meu comentário: aplica-se a mesma observação do item anterior, com o adendo de que isso só acontece em redes não fechadas, não “trancadas”, em que todos da rede podem acessar os recursos desta rede.

3) DIMENSÃO SOCIAL (comunidades, grupos, empresas, instituições, pessoas):

Somos exponenciais, pois somos uma economia colaborativa e, portanto, nossa gestão deve ser distribuída e deve ganhar escala.

Porém só gera valor exponencial incluindo e conectando o diverso.

Perguntas a serem feitas nessa dimensão:

Quais as ações para colaborar e celebrar com acolhida, conexão, receptividade, fluxo, prazer, alegria e beleza?

Meu comentário: as redes aqui falam de pessoas, sua diversidade, sua disposição de não ser uma “rede de uma pessoa só” ou “uma rede de seres escolhidos que merecem o melhor, enquanto as outras pessoas só assistem”, aqui se observa que simpatias e antipatias entre pessoas podem ser aceitas, mas que isso não pode ser motivo para que se façam inimigos e sim se deve fazer o esforço, consciente e trabalhado, de só se fazerem discordantes.
Inclusive porque discordâncias e incômodos são importantes neste nível e devem ser explicitadas e trabalhadas. Por todos.
E uma outra observação: aqui não se pode falar de escalabilidade e sim de reprodutibilidade. “Escalar” neste sentido não se coaduna com uma sustentabilidade que contemple a regeneração, já com reprodutibilidade não há problemas. Pego os modelos que me representam e dou “minha cara” a eles.

 

 

4) DIMENSÃO FINANCEIRA (tempo, crédito):

Somos exponenciais, pois somos uma economia multimoedas e, portanto, nossas riquezas são sociais, ambientais, culturais e financeiras.

Porém só gera valor exponencial se forem visíveis e mensuráveis, e que sejam colocadas para circular.

Perguntas a serem feitas nessa dimensão:

Quais as ações para creditar e circular os recursos 4D disponíveis?
Quais os impactos?
O que foi ativado com os nossos fluxos?
Qual o valor do que fazemos?
E do que circulamos?
Qual o fluxo de recursos não monetários?

Meu comentário: aqui também se aplica a observação de obstrução de fluxos. Não cabe aqui a “brincadeira” de “o dinheiro é todo meu por que eu quero um iate de ouro e eu trabalhei para isso, você que morra de fome”.

 

 

É importante realçar que para que estes modelos aconteçam, alguns pressupostos devem ser explicitados: (1) um é a noção de que este(s) modelo(s) só pode(m) ocorrer na aceitação de que se deve agir conscientemente em rede(s)[13]. (2) Outro é que se estará adentrando no reino dos sistemas complexos[14]. (3) E mais que educação, aqui se fala de aprendizagens[15]. (4) Há de se ter consciência de que estamos falando sobre o modelo de mundo de cada um. E que estes modelos-pessoas tem que conversar. Conversas dialógicas.

Diz Lala Deheinzelin que para saber mais sobre como evolui tudo isso, deve-se acompanhar as atividades da Fluxonomia 4D[16]. É uma ótima sugestão.

Enfim, vale a observação final: rompa com modelos que o fazem virar “estátuas humanas”. Está mais que provado historicamente que não é um modelo que funcione. Que adianta você estar vivo e riquíssimo de “Reais? Dólares?” num mundo cinza e estéril?

 

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[1] Este artigo é baseado em dois artigos de autoria de Lala Deheinzelin – http://laladeheinzelin.com.br/ – , um publicado em lista do Facebook e outro publicado no site Medium, https://medium.com/fluxonomia4d/fluxonomia-4d-as-quatro-economias-de-futuro-fecfd31de28f , mas que foi feito com minha visão e com o filtro de meus pensamentos e meus raciocínios

[2] https://medium.com/fluxonomia4d/fluxonomia-4d-as-quatro-economias-de-futuro-fecfd31de28f

[3] https://medium.com/fluxonomia4d

[4] https://elearning.iefp.pt/pluginfile.php/27001/mod_resource/content/0/INTRODUCAO_AS_REDES_SOCIAIS_-_PL.pdf

[5]http://laladeheinzelin.com.br/

[6] Ver aqui também: http://www.itmanagement.com.br/2018/futurismo-as-quatro-economias/

[7] Figura criada por Quino.

[8] Figura criada por Oswaldo de Oliveira.

[9] Ver aqui https://projetodraft.com/tag/design-regenerativo/ e aqui https://desenvolvimentoregenerativo.com/

[10] Ver o curso de Camila Haddad – Economia Colaborativa – no Descola. https://descola.org/curso/economia-colaborativa

[11] https://pt.wikipedia.org/wiki/Planejamento_baseado_em_cen%C3%A1rios

[12] http://smallactsmanifesto.org/

[13] Sobre redes: http://www.mthamaralconsultoria.com.br/mthconsultoria/tag/netweaving/

[14] Sobre sistemas complexos: ver https://pt.wikipedia.org/wiki/Sistemas_complexos , https://pt.wikipedia.org/wiki/Complexidade e https://en.wikipedia.org/wiki/Complex_adaptive_system

[15] Ver sobre aprendizagens no Medium do Alex Bretas: https://medium.com/@alexbretas11

[16] Que existem desde 2016. http://laladeheinzelin.com.br/fluxonomia-4d/ 

 

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